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Psicoeducação sobre comunicação: uma ferramenta valiosa



Sou psicóloga, especialista em terapia de casal e família e especialista em terapia sexual. Encontrei na TMS – Terapia dos Movimentos Sistêmicos - um paradoxo complementar: ampliar e condensar conhecimentos, tornando-os integrados e funcionais. Mas o mais interessante foi poder redimensionar a importância de conceitos fundamentais, como entender e psicoeducar sobre comunicação de forma mais ativa.


Tanto em atendimentos individuais quanto de casal, psicoeducar as pessoas sobre os Axiomas da Comunicação tem sido uma ferramenta fundamental para nortear todo o processo terapêutico. Usar o setting terapêutico para vivenciar uma comunicação eficaz, possibilita trabalhar as distorções cognitivas de forma pontual e objetiva. Ao fazermos isso, desnudamos os principais problemas comunicacionais.

No trabalho com casais, podemos ver o poder da comunicação para criar ou resolver conflitos. Certa vez, um casal chegou para a sessão de terapia sexual mais calados do que o normal. Depois de um “quebra gelo”, perguntei sobre a tarefa dada na sessão anterior: a focagem nas sensações erógenas. O casal ficou em silêncio. A mulher olhou para o marido, olhou para baixo e depois para ele novamente. Entao ele disse: “Olha aí, sessão nem começou e ela está assim!”. Ela responde irritada: “Não falei nada!”. Diante disso, pergunto o que aconteceu. A mulher olha para o marido, e após um suspiro fala “Bem, a minha parte da tarefa eu fiz direitinho”. Diante da fala, o marido passa as mãos no rosto, olha bravo para ela e, com tom de acusação, fala: “Fez sim, bem direitinho... mas e eu pude fazer? Conta tudo então! Conta o que você falou antes de eu desistir de fazer a minha parte!”.


Há um universo de denotações e conotações neste curto diálogo, que já nos dá uma ideia da dinâmica relacional do casal. Comecei pontuando a comunicação que houve no silencio - o primeiro axioma: É impossível não se comunicar. Através dele, ajudo a perceberem que ambos já me demonstraram que havia algo errado, desde que entraram. Nesse mesmo sentido, aponto que a mulher pode não ter falado nada verbalmente, mas sua postura e olhares comunicaram sua insatisfação. Assim, é possível explicar o segundo axioma – que nos comunicamos verbal e não-verbalmente. Nesse caso, o não verbal de ambos comunicou muito mais que o verbal: os fez distorcer a comunicação através de leituras mentais e os levou a desregular a raiva em questão de segundos.


Em geral, cada um tenta explicar seu comportamento e insistir apenas no conteúdo verbal. Percebemos isso quando a esposa diz “apenas falei da sua tarefa, não te acusei de nada”. Então é possível explicar o terceiro axioma: toda a comunicação tem um conteúdo e uma conotação. Por mais que não queiramos, podemos passar intenções subliminares que podem ser mal recebidas, principalmente quando não assumimos a responsabilidade por elas. A escolha de palavras e o tom de voz da esposa deixou implícito que o seu marido não havia agido corretamente. A resposta dele confirma a dupla mensagem, pois foi uma reação contra-argumentativa. Uma tentativa de defesa à suposta acusação dela.


Também é possível ajuda-los a perceber que toda fala tem uma pontuação diferente para quem a comunica (quarto axioma). Ela começa contando sobre o fato dele não ter feito a tarefa, e assim, delimita este ponto como o inicio do problema. Ja ele, por outro lado, pontua um diálogo anterior como “origem” da desistência da tarefa. Se deixarmos, ambos seguiriam buscando supostas origens ao mal estar, mas apenas com o intuito de “ganhar o jogo”. Entretanto, num relacionamento amoroso, o jogo não pode ser competitivo. Ele precisa ser cooperativo. Entender fatos passados são positivos para nos ajudar a ser empáticos e validantes com o sofrimento alheio. E não munições para um discurso bélico.

Procuro mostrar ao casal que toda comunicação tem encaixes, seja pela igualdade ou diferença (quinto axioma). Nesse caso, a comunicação simétrica patológica entre eles, em que a resposta de um gera uma disputa de poder no outro, tende a criar uma espiral crescente de acusações e distanciamento. Mostro que seguir neste caminho não traz possibilidade de entendimento e os leva a uma escalada de poder. Então voltamos a cada fala, expressando em palavras o que realmente queriam dizer e ajudo cada um a falar por si mesmo, sem acusar o outro.


Treinando em sessão uma forma de comunicação clara, honesta e assertiva, o casal pode realmente se comunicar de forma adaptativa. Ambos deram, um ao outro, e ao terapeuta, o lugar de fala e escuta. Com a facilitação terapêutica foi possível negociar os pontos de vista e crescer com a opinião oposta.


Fica claro neste recorte que não há possibilidade de trabalhar a tarefa, motivada pela demanda explicita de terapia sexual, sem antes trabalhar a disfuncionalidade da comunicação. É bem provável que a forma de se comunicar seja um dos principais entraves para a proximidade e a sexualidade.


Ajudar cada um a olhar para a sua forma de se comunicar e escolher formas mais assertivas é um recurso indispensável neste caso. O que o casal aprende na sessão pode ser levado para casa e praticado como um exercício, sempre que a comunicação gerar reações emocionais que os fragilizem.


Eu acredito ser fundamental psicoeducar sobre a pragmática da comunicação da forma mais clara e didática possível. É um recurso valioso, no qual podemos ver toda a complexidade que se esconde na escolha de palavras (ditas ou não) , tons de voz, pontuação de ciclo, nas simetrias ou complementaridades, permitindo aprendizagens que transformam os sistemas. A TMS, a Terapia dos Movimentos Sistêmicos nos ajuda a promover saúde comunicacional quando do uso do Movimento 07, especialmente da técnica de “Higiene da Comunicação”.


Dayani Croda Machado

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